terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Cavalos nunca esquecem as verdadeiras amizades






Os cachorros que se cuidem! Um estudo da Universidade de Rennes, na França, mostrou que os cavalos podem ser mais leais até que nossos amigos de longa data – desde que bem tratados, é claro.

A pesquisa analisou o comportamento de 20 cavalos anglo-árabes e três franceses em um estábulo em Chamberet, também na França. Os cientistas testaram o quão bem os cavalos se lembravam de um treinador do sexo feminino e das instruções que ela havia dado aos bichanos depois de oito meses longe dos animais.

Eles constataram que o animal possui uma excelente memória e que, além de recordar dos “amigos” humanos mesmo depois de longos períodos distantes, também se lembra de informações complexas (como uma estratégia que aprendeu para resolver algum problema) por dez anos ou mais.

O resultado mostrou que os cavalos são leais, inteligentes e têm memórias de longa duração. Mas, cuidado: essas lembranças são de boas e más experiências. Nada de tratar mal o animal, ok?


(por Kleyson Barbosa)

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Cadelas são mais inteligentes do que cachorros





A guerra dos sexos já tem vencedor. Entre os caninos, pelo menos. 


Um estudo da Universidade de Viena, na Áustria, constatou que os cérebros de machos e fêmeas apresentam diferençassubstanciais. E que elas são mais espertas, de acordo com um teste criado para mexer com as cabecinhas deles: uma bola grande desaparecia atrás de uma mesa, enquanto outra, bem menor, surgia do outro lado.

Segundo os pesquisadores, as cadelas percebiam que não se tratava da mesma bola. Mas os cachorros, bobinhos, não. Como eles sabem? 

Dá para deduzir pelo pouco tempo que as fêmeas passavam olhando para o objeto – “se algo inesperado ou, digamos, impossível acontece, os animais (assim como as crianças pequenas) observam o evento por mais tempo“, diz o líder do estudo, Corsin Müller. Ponto para elas.


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Site lista animais capazes de prever mudanças climáticas



O site Mother Nature Network fez uma listinha bem bacana de animais que, supostamente, são capazes de prever mudanças no clima, como os sapos (os coachados deles ficam mais altos e longos frente à expectativa de chuva), os pássaros (a altitude em que eles voam prevê tempo bom ou ruim) e as ovelhas (elas passam a andar em grupos quando o tempo vai fechar). “Supostamente” porque não há a devida comprovação científica para embasar os tais poderes dos bichos e, então, a responsabilidade cai mais sobre o terreno da superstição e da tradição cultural. Ou seja, a coisa aqui é mais “maluca” do que “ciência”. Mas vale dar uma olhada mesmo assim.Passa lá (em inglês). (A foto é só de brincadeira; os pandas não estão na lista.)

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Análise genética ajuda a mapear populações de grandes carnívoros


Estudo do DNA presente em amostras de pelos ou de fezes auxilia pesquisadores do Sisbiota a descobrir informações sobre as espécies remanescentes nos fragmentos de Mata Atlântica e de Cerrado (foto: Pedro Galetti)


Agência FAPESP – Métodos não invasivos de análise de DNA estão auxiliando pesquisadores vinculados ao Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade (Sisbiota) a monitorar populações de grandes carnívoros existentes na Mata Atlântica, no Cerrado e nas áreas de transição entre esses dois biomas no Estado de São Paulo e adjacências.

O objetivo é usar os dados coletados para aperfeiçoar modelos de viabilidade populacional e contribuir para o desenvolvimento de planos de conservação, explicou Pedro Manoel Galetti Junior, professor do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador da Rede Sisbiota – Predadores de Topo de Cadeia, apoiada pela FAPESP.

“Esses animais, particularmente os predadores de topo de cadeia, possuem hábitos muito elusivos. Dificilmente são vistos no campo e, por isso, têm sido estudados pelos ecólogos por meio de vestígios como pelos, pegadas e fezes. A genética vem como uma nova e poderosa ferramenta nesse esforço de identificação”, afirmou Galetti.

A análise do DNA mitocondrial de uma amostra de fezes, exemplificou o pesquisador, permite descobrir a espécie depositora, ajudando a calcular o tamanho de uma população e da área que ela ocupa.

“Por meio de um método parecido com os de testes de paternidade, que usa marcadores moleculares neutros como os do tipo microssatélites, é possível individualizar cada amostra”, disse Galetti.

“Como temos o dado geográfico, conseguimos determinar com auxílio de um GPS onde estava aquele indivíduo no momento em que defecou. Se uma nova amostra do mesmo indivíduo for coletada posteriormente em outro local, consigo ter noção de seu deslocamento”, explicou.

O método padronizado pelo grupo do Sisbiota permite ainda calcular a proporção entre machos e fêmeas de uma determinada população, estudar sua variabilidade genética e o fluxo de genes entre os diferentes fragmentos de mata nativa.

Entre os felinos, até o momento as análises têm se concentrado em populações de onça-parda (Puma concolor), jaguatirica (Leopardus pardalis), gato-maracajá (Leopardus wiedii), jaguarundi (Puma yagouaroundi) e gato-do-mato (Leopardus tigrinus).

No grupo dos canídeos os destaques são o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) e o cachorro-vinagre (Speothos venaticus).

Onça-pintada na Serra do Mar

Embora o foco principal seja o Estado de São Paulo, os pesquisadores têm estudado todo o contínuo de Mata Atlântica que se estende até o norte de Minas Gerais, bem como as regiões de Cerrado até o sul de Goiás.

“Em primeiro lugar, queremos descobrir quantos desses animais ainda existem nos fragmentos. Essa é uma informação que, por mais simples que pareça, é desconhecida em razão da dificuldade de se fazer esse tipo de análise”, disse Galetti.

As estimativas populacionais ainda estão sendo concluídas. Segundo Galetti, o processo é demorado, pois os testes precisam ser repetidos de duas a cinco vezes para que se possa ter certeza dos resultados.

Dados preliminares, porém, já revelaram a presença da onça-pintada (Panthera onca) em algumas áreas do Estado nas quais se acreditava que a espécie estava extinta, como no Núcleo Santa Virgínia do Parque Estadual da Serra do Mar.

“Queremos ampliar os estudos para que seja possível rodar modelos de viabilidade populacional. Esses modelos consideram várias características de qualidade do habitat para calcular a probabilidade de persistência de uma determinada espécie em um determinado ambiente pelos próximos 100 anos. As análises se tornarão mais confiáveis quando conseguirmos introduzir nos modelos os dados genéticos”, avaliou Galetti.


Por Karina Toledo
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Pesquisadores brasileiros sugerem forma ampliada de avaliar riscos de extinção de espécies

O fim-fim (Euphonia chlorotica) é uma das aves brasileiras em risco
O fim-fim (Euphonia chlorotica) é uma pequena ave brasileira que habita ambiente de floresta

Mudanças ambientais, provocadas ou não pela ação do homem, têm impacto na vida selvagem e estão refletidas na extensão da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas publicada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). A listagem com 71.576 nomes de animais, plantas, fungos e microrganismos é a base para a elaboração de políticas de conservação mundo afora. No entanto, pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) sustentam que a lista não deve ser o parâmetro único para planejar ações de conservação, pois aspectos ignorados pela IUCN podem colocar em xeque o êxito das medidas. Os pesquisadores brasileiros sustentam que é necessário avaliar a saúde dos ecossistemas em sua totalidade e não tomar isoladamente o risco de extinção de cada espécie.

Para fornecer dados mais fidedignos, os pesquisadores da UFG criaram um modelo para quantificar o risco de desaparecimento das espécies. Quase todas as aves do Brasil constam da tabulação feita para o trabalho científico, somando 1.557 espécies. Os brasileiros foram abrangentes, levaram em conta dados como a influência humana (caça, comércio ilegal, desmatamento), a dieta dos animais (se se alimentam de frutas, folhas, insetos), além do ambiente em que vivem (floresta, ambiente aberto, savana), os hábitos (noturno ou diurno), a quantidade de ovos por ninhada e o tamanho dos bichos, além de 15 outras variáveis.

“Aplicando nosso modelo, somos capazes de prever se o animal ou planta têm, por exemplo, 30%, 40% ou 80% de chance de se extinguir em determinado momento. Descobrimos que a maioria dos exemplares de aves mais ameaçados de nosso país não estão sequer em áreas protegidas”, explica o professor Rafael Loyola, co-autor, com a doutoranda Nathália Machado, do artigo A Comprehensive Quantitative Assessment of Bird Extinction Risk in Brazil, publicado na edição de agosto da revista PLoS ONE.

A IUCN, por outro lado, aplica somente 12 critérios para definir se uma espécies está em perigo ou não. Tamanho da população, número de indivíduos maduros, taxa de declínio, fragmentação das populações e área de ocorrência são alguns das variáveis usadas. Dessa forma, cada espécie recebe da IUCN uma etiqueta específica – dados insuficientes (DD), pouco preocupante (LC), quase ameaçada (NT), vulnerável (VU), em perigo (EN), criticamente em perigo (CR), extinta na natureza (EW) e extinta (EX).

Os pesquisadores esperam que o modelo auxilie em mais um parâmetro, a probabilidade de extinção, capaz de melhorar o planejamento das políticas ambientais. “O estudo amplia o conhecimento sobre o grau de ameaça das espécies e isso tem um peso político enorme, porque o governo só tem condições de tomar decisões mais eficientes quando conhece o nível de ameaça a uma espécie. Por exemplo, pode-se intensificar a fiscalização a uma região específica ou criar áreas de preservação para impedir a degradação daquele ecossistema”, afirma Loyola.

Características ecológicas e histórias evolutivas
O outro artigo produzido pelo Departamento de Ecologia da UFG, intituladoConservation Actions Based on Red Lists Do Not Capture the Functional and Phylogenetic Diversity of Birds in Brazil e também publicado na edição de setembro da revista PLoS ONE, aprofunda o entendimento sobre as características ecológicas e histórias evolutivas de cada ave brasileira no ecossistema em que vive. São aspectos pouco avaliados pelas políticas de conservação, e isso inclui a Lista Vermelha da IUCN.

O objetivo dos cientistas foi avaliar o nível de diversidade funcional e de diversidade filogenética de ambientes para saber se os mesmos são saudáveis. Com essa informação em mãos, contam os autores do estudo, a aplicação de políticas de conservação teria maior impacto. A classificação poderia, por exemplo, ajudar a determinar quais regiões terão melhor resultado dentre aquelas que já estão muito degradadas, e que precisam de outras intervenções.

O nível de diversidade funcional diz respeito à diferença ecológica entre as espécies presentes nos ecossistemas. Quanto mais alto é o índice, mais “saudável” é o local, porque ali existem espécies com múltiplas funções e isso garante o equilíbrio natural. “Quando há espécies ecologicamente muito diferentes habitando o mesmo ambiente, espera-se achar ali aves que desempenhem papéis diversos, tais como dispersão de sementes, polinização e predação, diz o professor Loyola, que também participou do estudo, e que tem co-autoria do mestrando José Hidasi Neto e de Marcus Cianciaruso, também professor da UFG.

Já o nível de diversidade filogenética indica o quão diferente são as espécies daquele ambiente do ponto de vista evolutivo. “Usamos como exemplo a ema, que é uma grande ave que não voa e ocorre em áreas abertas, ao contrário do fim-fim (Euphonia chlorotica), que é pequeno e habita ambiente de floresta. Essas várias linhagens (ou grupos evolutivos) convivendo na mesma área atestam a saúde de todo do ecossistema”, explica Loyola.



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Olimpíada Brasileira de Biologia está com inscrições abertas


Agência FAPESP – A 11ª Olimpíada Brasileira de Biologia (OBB) está com inscrições abertas. O evento é organizado pela Associação Nacional de Biossegurança (ANBio) e reúne escolas de todo o país com a missão de estimular e difundir o ensino da disciplina.
Devem se inscrever apenas os professores responsáveis, coordenadores, diretores e suas respectivas escolas pelo site da OBB (www.anbiojovem.org.br).
Após a aplicação da prova da primeira fase, de responsabilidade do professor credenciado, o docente deverá lançar as notas de todos os seus alunos, por meio de login e senha, no sistema do próprio site. A partir daí, os alunos podem ser cadastrados. As inscrições vão até 13 de março de 2015.
A OBB é voltada a alunos que tenham, no máximo, 19 anos e estejam cursando o ensino médio ou já concluíram essa etapa, mas ainda não entraram na faculdade.
A olimpíada tem três estágios. A primeira prova, eliminatória, é formada por 30 questões de múltipla escolha. A segunda etapa é composta por uma prova com 120 perguntas objetivas. Por fim, a terceira etapa inclui uma prova durante um treinamento prático no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Os alunos selecionados na 11ª OBB participarão da Olimpíada Internacional de Biologia, que ocorrerá na Dinamarca, e da Olimpíada Ibero-Americana, em El Salvador.
Mais informações em www.anbiojovem.org.br
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Serpentes acuadas


Jararaca-ilhoa, da ilha de Queimada Grande (foto: Eduardo Cesar)




Depois de quatro anos organizando uma rara síntese de informações produzidas durante muitas décadas de trabalho de campo, o biólogo Cristiano Nogueira pode finalmente dizer: “Agora conseguimos ver de modo claro que a principal ameaça às serpentes do Brasil é uma dramática perda de vegetação nativa, que é também a causa de outros problemas, como essa seca em São Paulo”. Como pesquisador do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), ele coordena um extenso mapeamento, comparando a distribuição geográfica atual e passada das serpentes brasileiras. Os resultados preliminares indicam que algumas espécies perderam até 80% da área de floresta ou campos que ocupavam três décadas atrás. A perda de espaço – associada à expansão das cidades e da agropecuária, como também se passa com outras espécies – implica o desaparecimento de evidências da história evolutiva não apenas das cobras, mas também de outros grupos de seres vivos, que se formaram e ocuparam seus espaços ao longo de milhões de anos.

Nogueira espera concluir em 2016 os mais de mil mapas que delimitam com precisão esse problema ao comparar as áreas ocupadas hoje e no passado pelas 380 espécies encontradas no Brasil. É a maior diversidade de serpentes do mundo, incluindo as minúsculas e inofensivas cobras-cegas, as jararacas, cascavéis, corais verdadeiras e falsas, até as maiores, como a jiboia e a sucuri, de até 10 metros de comprimento. De acordo com os mapas já prontos, 22 espécies são exclusivas – ou endêmicas – de trechos da caatinga e outras 80 da mata atlântica. “Estamos descobrindo as áreas de endemismo e ao mesmo tempo vendo que as estamos perdendo”, observa Nogueira, à frente de uma equipe de 25 especialistas do Brasil e dois da Argentina.

A Bothrops itapetiningae, a menor entre as jararacas, com 40 a 60 centímetros de comprimento – os machos têm cauda mais longa, enquanto as fêmeas têm uma cabeça maior —, deve ocupar hoje apenas 20% da área original de há 30 anos, que se estendia pelos campos e cerrados desde São Paulo até o centro de Goiás e foi intensamente ocupada por plantações ou cidades. “O desmatamento chegou até as bordas do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso e Pará, e do Parque Nacional das Emas, em Goiás”, observa Nogueira. “As perdas cresceram muito desde que comecei esse levantamento, em 2010, e agora avançam sobre a floresta amazônica.”


© THESAURI/ ALBERTUS SEBA


Os primeiros registros de serpentes do Brasil: a papa-pinto em um livro de 1734 publicado na Alemanha…

Outra espécie acuada é a jararaca-de-murici (Bothrops muriciensis), encontrada apenas em matas de altitude superior a 400 metros em uma estação ecológica no município de Murici, em Alagoas. Marco Antonio de Freitas, pesquisador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que coordenou o trabalho de campo com essa espécie, viu que o desmatamento é intenso por lá, mesmo em áreas protegidas por lei. Não é o único problema. “Nas regiões Norte e Nordeste ainda não existe um trabalho educativo eficaz, que coíba a matança de serpentes peçonhentas. O máximo que se consegue é que os moradores não matem as que eles mesmos reconhecem como inofensivas”, disse ele. Ali e em outros lugares, a maioria das pessoas prefere matar esses bichos, por causa do medo e do asco que despertam, embora a minoria das espécies seja venenosa. Em um estudo de 2014, Freitas relatou que a jaracuçu-tapete (Bothrops pirajai) vive apenas em fragmentos de mata atlântica do sul da Bahia, sob as mesmas ameaças.

Uma visão mais ampla revela um paradoxo: a região mais povoada do país – do sul de Minas Gerais até o sul de Santa Catariana – apresenta a maior riqueza (número de espécies) e diversidade filogenética (linhagens) de serpentes, por causa da variedade de formas de vegetação e de relevo. É nessa área que houve mais coletas, o que facilita a identificação de espécies novas. Em um levantamento na serra de Paranapiacaba, na Grande São Paulo, a bióloga Vivan Trevine, do MZ-USP, encontrou 16 espécies de cobras e 80 de anfíbios, uma boa amostra da diversidade de vida silvestre de todo o estado. Há também áreas ricas em espécies e em linhagens ainda pouco percorridas por biólogos, como as matas e cerrados da chapada de Parecis e serra de Ricardo Franco, no oeste de Mato Grosso, e nas regiões norte e central dos Andes (ver mapas).

Muitos anos de silêncio
“Estamos reunindo informações que começaram a ser coletadas há 250 anos”, diz Nogueira. O botânico e zoólogo Carl von Linné, Lineu, foi quem apresentou em 1758 uma das primeiras descrições de uma serpente do Brasil, uma jiboia. “Ver como as cobras se distribuem espacialmente é uma forma de entender a formação e a evolução dos ambientes naturais”, afirma Nogueira. “Se entendermos o que gerou a diversidade das serpentes, talvez seja possível concluir o que se passou também em outros grupos de animais.”


© ICONOGRAPHIE GÉNÉRALE DES OPHIDIENS/GIORGIO JAN E FERDINANDO SODELLI


… e a jiboia (cobra maior), em um livro de 1864 publicado na Itália

Os mapas estão sendo construídos a partir de cerca de 100 mil registros de coletas de espécies, “todos verificados por pelo menos um especialista”, assegura Nogueira. Foi um trabalho lento e meticuloso. Thais Guedes, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Fausto Barbo, da USP, passaram anos examinando os animais e as etiquetas de identificação de dezenas de coleções zoológicas do Brasil – ela com os bichos da caatinga e ele, da mata atlântica – e de outros países. “Havia muita informação, mas espalhada, desorganizada, com erros que tiveram de ser corrigidos”, diz Ricardo Sawaya, da Unifesp. Ele e Barbo examinaram jararacas da ilha de Santa Catarina no museu Koenig, em Bonn, na Alemanha, coletadas pelo zoólogo alemão Paul Müller entre 1960 e 1970. Em silêncio, trazendo à tona informações para estudos como esse, trabalha também o técnico do Butantan Valdir José Germano, há cinco anos dedicado à paciente recuperação de cobras queimadas e suas etiquetas de identificação chamuscadas pelo incêndio que destruiu a maior parte de uma coleção de mais de 80 mil amostras do instituto, em 2010.

Desde 2012 os pesquisadores fornecem informações sobre a distribuição geográfica das espécies para a lista de espécies ameaçadas, divulgada pelo ICMBio em novembro de 2014. Otavio Marques, biólogo do Butantan que trabalha há 30 anos com distribuição geográfica e história natural de espécies da mata atlântica do litoral paulista, comemora o fato de as informações sobre cobras e outros grupos de animais terem sido usadas na elaboração das Diretrizes para conservação e restauração da biodiversidade do estado de SP, documento publicado em 2008 com o propósito de reconhecer e proteger as áreas de vegetação nativa com elevada concentração de espécies diferentes de animais e plantas. “Já criaram unidades de conservação em São Paulo com base nesses mapas”, ele diz.

As ilhas das cobras
As ilhas e as matas do litoral brasileiro estão se revelando um autêntico ninho de jararacas: cada lugar parece ter suas próprias espécies ou ao menos variedades únicas de uma mesma espécie. Nas árvores da ilha de Queimada Grande – e apenas lá –, vivem centenas de jararacas-ilhoa, de cerca de 1 metro de comprimento, com um veneno que lhes permite matar pássaros em segundos. A ilha dos Alcatrazes, a cerca de 30 quilômetros (km) de distância, abriga outras centenas de jararacas-de-alcatrazes, de meio metro de comprimento, que se alimentam quase exclusivamente de centopeias. Agora aparece outra espécie, a Bothrops otavioi, que come sapos e por enquanto foi vista apenas em um lugar, as matas da ilha Vitória, no município-arquipélago de Ilhabela. Uma candidata a nova espécie de jararaca vive na ilha vizinha de Búzios e outra desliza ainda anônima em uma ilha mais ao norte, no litoral do Espírito Santo.

Para os pesquisadores, encontrar novas espécies gera sensações contraditórias como a alegria de quem chega a uma festa e logo se decepciona ao ver que o encontro está acabando. “Apresentamos as espécies como novas e já as classificamos como ameaçadas de extinção, por causa do alto risco de perda das áreas de matas nativas em que vivem”, diz Sawaya. Ele participou da caracterização da jararaca da ilha Vitória e trabalha na descrição da possível espécie nova da ilha vizinha de Búzios, ambas habitadas por famílias de caiçaras, cujas casas avançam sobre as matas nativas.

Os pesquisadores acreditam que as ilhas do litoral podem abrigar variedades únicas de seres vivos em consequência do isolamento geográfico causado pelo recuo do nível do mar, um processo concluído há cerca de 10 mil anos que pode ter favorecido a formação de novas espécies. Ainda haveria muito a ser descoberto porque “o estado de São Paulo tem mais de 100 ilhas e o Rio de Janeiro, mais de 300, a maioria ainda com poucos levantamentos biológicos”, diz Sawaya. É provável que não seja fácil encontrar os bichos. “Serpente é um bicho ingrato para estudar, em geral não se acha fácil”, observa Marques, “mas em Queimada Grande dá para ver de 10 a 15 jararacas por dia. Em Alcatrazes, de cinco a 10”. Estima-se que de 2 mil a 3 mil jararacas vivam em cada uma dessas ilhas.

Espécies novas de serpentes podem ser encontradas até mesmo em matas urbanas. Pesquisadores de São Paulo, Goiânia e Belém apresentaram em 2014 uma espécie nova de coral verdadeira, a Micrurus potyguara, encontrada em João Pessoa, na Paraíba. Com base em registros do Butantan de 2003 a 2007, Barbo verificou que os fragmentos de mata atlântica do município de São Paulo abrigavam 38 espécies diferentes. As mais frequentes eram outra falsa-coral, a jararaca-dormideira, uma inofensiva comedora de lesmas, e a jararaca-da-mata, venenosa, de corpo marrom com manchas triangulares escuras.


© EDUARDO CESAR

Trabalho de base no Butantan: Valdir Germano reorganiza o acervo atingido pelo incêndio de 2010…

Conhecer e perder
“Se não agirmos agora, em 20 anos não haverá mais nada para preservar”, alerta Nogueira. “Muitas áreas que visitei há 15 anos em Goiás, Mato Grosso e Bahia não existem mais, foram tomadas pela agricultura.” Em 1997, ainda como estudante de biologia em São Paulo, ele saiu pela primeira vez para fazer o resgate de animais em uma área de cerrado que seria coberta pelo reservatório da hidrelétrica de serra da Mesa, em construção no nordeste de Goiás. Apesar do ceticismo dos colegas – o cerrado é ainda visto como uma região de baixa diversidade biológica –, Nogueira encontrou “uma riqueza estupenda de lagartos e serpentes”, já que se tratava de uma região de contato entre a floresta amazônica e áreas de planalto do Brasil Central.

“Foi o que chamei de paradoxo da serra da Mesa: conhecer no momento da perda. Foi assim também em outros lugares, e também com peixes e outros grupos de animais”, diz ele. “Ainda dependemos desses eventos de grande destruição, como agora em Belo Monte e Jirau, no norte do país, para conhecer a diversidade biológica de um lugar. Agora temos os bichos, identificados e conservados em museus, mas não mais os espaços em que viveram. Temos de fazer mais inventários biológicos planejados em regiões íntegras, como os parques e reservas, ainda quase desconhecidos.”

O biólogo Hussam Zaher, pesquisador e ex-diretor do Museu de Zoologia, viveu a mesma situação em 2014, ao descobrir um gênero e uma espécie nova de uma serpente coletada nas matas que serão cobertas por outro reservatório da região amazônica. Outro exemplar dessa serpente foi capturado em outra área, a 150 quilômetros de distância, que também será coberta pelas águas de uma hidrelétrica.

Com seu grupo, ele trabalha em análises genéticas e moleculares de 1.200 espécies de serpentes da América do Sul para estabelecer a origem e a filogenia – a árvore genealógica – desse grupo de animais. “As cobras são lagartos modificados, que perderam as patas ao longo da evolução, mas ainda não sabemos de que grupos de lagartos as cobras podem ter se originado”, diz ele. As análises dos dados devem começar ainda no primeiro semestre de 2015. Os resultados preliminares, com apenas 12 genes, indicaram que as jararacas das ilhas e do continente não se diferenciam geneticamente e, portanto, poderiam ser a mesma espécie, apenas com variações morfológicas. “Estamos refazendo as análises, com amostras maiores de DNA”, afirma Zaher.


© EDUARDO CESAR

… e Selma Almeida Santos e Juliana Passos medem jararacas-ilhoa criadas em laboratório

Diante de militares
Convencer a população e autoridades sobre a necessidade de preservação desses bichos não é fácil. Não basta dizer que, sem as cobras, haveria mais sapos e ratos nas matas e nas cidades. Nem que existem seres de hábitos únicos, como aRhachidelus brazili, uma cobra preta que só come ovos e vive em áreas de campos nativos cada vez menores do cerrado, ou espécies que poderiam representar uma região – a jararaca-da-seca (Bothrops erythromelas), avermelhada, “é a caatinga em forma de serpente, só vive na vegetação baixa e no pé de serras”, diz Nogueira.

O cirurgião mineiro Rodrigo Souza resolveu agir, comovido com a redução da vegetação nativa e com atropelamentos de cobras nas estradas do sul da Bahia. Em 2001 ele comprou um sítio em Itacaré e fez um serpentário para criar surucucus (Lachesis muta), a maior cobra venenosa das Américas, cada vez menos vista na região. As cobras são mantidas em viveiros em um espaço cercado por muros de 3 metros de altura e 50 centímetros de profundidade, para impedir a passagem de tatus, uma exigência de órgãos ambientais. Souza, que trabalha com pesquisadores de São Paulo e de Minas Gerais, anunciou em 2007 a primeira reprodução em cativeiro de surucucus de mata atlântica, antes classificada em extinção.

Em uma reunião em Brasília no início de 2013, Marques, do Butantan, pediu para os militares da Marinha pararem de realizar exercícios de tiro nas rochas da ilha dos Alcatrazes. Os tiros, ele argumentou, causavam incêndios que poderiam reduzir as populações de jararacas e a Marinha poderia ser responsabilizada. “Os militares aceitaram parar os exercícios em Alcatrazes”, conta. Em outro encontro ele usou um argumento utilitarista, perguntando qual dos militares e políticos à sua frente tinha hipertensão. Vendo os braços erguidos, ele lembrou que um medicamento hipertensivo bastante usado, o Captopril, foi desenvolvido a partir do veneno da jararaca do continente (Bothrops jararaca).

Marques alerta que, se perdessem a espécie de Alcatrazes, “perderemos uma fonte potencial de novos medicamentos”. Poderia haver outras possibilidades porque, como se viu no Butantan, o veneno dessa espécie contém três proteínas específicas, diferentes das encontradas no veneno da jararaca do continente, que se alimenta basicamente de pequenos mamíferos e não de centopeias como a jararaca-de-alcatrazes.

Os primeiros exemplares da outra jararaca de ilha, a ilhoa, chegaram ao Butantan em 1911, enviados por Antonio Esperidião da Silva, um morador da ilha de Queimada Grande. Afrânio do Amaral, pesquisador e um dos diretores do instituto, ficou intrigado ao ver penas entre as fezes das cobras (ainda não se conhecia nenhuma jararaca que comesse aves) e visitou a ilha várias vezes. Depois emergiu um problema novo, o contrabando de cobras. “Alunos nossos receberam ofertas para trazer bichos de Queimada Grande”, conta Marques.

Em 2010, com sua equipe, ele trouxe 20 cobras de Queimada Grande e pediu à bióloga Selma Almeida Santos: “Cuide delas como se fossem seus filhos”. Selma, com sua equipe, estudou a viabilidade dos espermatozoides e o ciclo hormonal das fêmeas para ver o melhor momento de promover os encontros entre os casais. Os acasalamentos deram certo e nasceram 25 filhotes. Quatro anos depois, as cobras ainda são mantidas em caixas plásticas em um dos laboratórios do Butantan, mas devem viver novas experiências em breve. “O próximo passo é soltá-las em uma área com mata, para que possam viver e se reproduzir sem nossa assistência, e depois começar o mesmo trabalho com outras espécies ameaçadas”, diz Marques. “Já trouxemos quatro jaracaras-de-alcatrazes.” Em alguns anos ele saberá se a estratégia deu certo com essa outra habitante das ilhas e se poderia ser adotada para recuperar as populações de outras espécies ainda não perdidas.


Por Carlos Fioravanti

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