Os cães são animais totalmente adaptados ao convívio com os seres
humanos, mas para chegar ao estágio atual, os animais passaram por
diversas fases evolutivas. Uma história que começou há cerca de 20 mil
anos, quando ainda nem latiam e não podiam ser considerados cachorros.
Na primeira reportagem da série "Mundo Pet", o TEM Notícias mostra como foi esse processo.
Os cães que conhecemos são descentes dos lobos, o que muita gente
discute é como parte deles se aproximou do homem e acabou domesticado.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Cinófilos (Sobraci), são várias
teorias e, segundo o vice-presidente da instituição, esse laço histórico
teve um início ruim. “Não foi uma amizade com um começo fácil. Era um
jogo de interesses para ambas as partes”, afirma Éric de Moraes Bastos.
Teorias apontam que cães descenderam dos
lobos (Foto: Reprodução/TV TEM)
As
teorias apontam que os alguns lobos andavam atrás dos homens para se
aproveitar dos restos de comida. Instintivamente eles perceberam que ao
lado das tribos teriam alimento fácil e passaram a dividir o território.
Com os lobos por perto, os homens viram que estavam mais protegidos de
ataques de outros animais e permitiram a aproximação.
Com o tempo, os filhotes das gerações futuras dos lobos não caçavam
mais sozinhos e tinham o homem como única fonte de alimentos. Foi aí que
começou uma das amizades mais longas e sinceras do planeta: o cão e o
homem. “O cão precisa enxergar o homem como sendo o seu macho alfa e
isso começou nesta época. Quanto mais o filhote percebe a presença do
homem, mais ele entende como somos ‘lideres’ deles. Um protetor e
provedor de alimento, tudo na base da troca”, explica Éric.
Nos anos que se seguiram, os homens deixaram de viver somente da caça e
passaram a explorar a agricultura e a criar os animais que comeriam nas
refeições, como ovinos e bovinos. Os cães perderam a função e tiveram
que se adaptar. Passaram de caçadores a pastores. Para isso, foi feita
mais uma seleção genética.
Homens e cães tiveram uma relação de troca
no começo (Foto: Reprodução/TV TEM)
Era
preciso cruzar somente os cães que tinham menos propensão de comer os
rebanhos e eles passaram a trabalhar. “Enquanto o pastoreiro você
precisa de um cão forte que imponha respeito frente ao bando, não pode
se trabalhar com um animal que tem uma agressividade maior. Ele tem que
ser territorialista sem demonstrar perigo para o rebanho”, ressalta o
vice-presidente da Sobraci.
Segundo o adestrador Duval Ramos, o rottweiller, como conhecemos hoje,
era um cão usado para cuidar de rebanhos de gado. “Ele foi desenvolvido
para ser um cão boiadeiro, mas ele é adaptado para o trabalho de guarda.
Assim como quase todas as raças, com exceção do doberman que tem uma
propensão genética muito maior para a função, todos trabalham com a
segurança”, comenta o adestrador.
Animal de estimação
A humanidade seguiu evoluindo e o cão virou apenas um animal de
estimação. Em sua maioria, integrantes da família, mas sem nenhuma
função econômica. Não comem mais carne crua e sim ração desenvolvida
especialmente para eles. Hoje, as antigas feras são o que chamamos de
PET: conceito nascido na Escócia, no século 14 e que significa
basicamente animal domado.
A mudança é tão drástica, que o animal que ainda carrega 98% do DNA dos
lobos tem que sobreviver em espaços cada vez menores. Uma adaptação que
não é fácil, demora anos, e nós estamos vivendo as consequências. É o
caso de Vitor Carvalho e Alinda Silva. O casal mora em um apartamento e
encontraram a cadela Gioconda abandonada em um parque.
O
coração falou mais alto, eles levaram o filhote pra casa e nunca mais
se separaram dele. No entanto, em 10 meses, o apartamento ficou pequeno
para o animal. “Com cinco meses ela já estava com 20 quilos. É bastante
coisa e ocupa muito espaço”, comenta Aline.
Segundo os especialistas, é preciso pensar que antes de ter uma raça. A
espécie, os ancestrais falam mais alto e uma das saídas para aliviar a
tensão é o adestramento. Com um pouco de treino e paciência, qualquer
animal, independentemente da raça, pode se transformar em um cão
obediente.
Na mão de um profissional, alguns animais podem fazer coisas
inacreditáveis. Como, por exemplo, andar em um skate. Além de andar de
skate, eles aprendem a rezar, fingir de morto, até fazer uma cesta. Os
maiores gastam energia fazendo agilit, um percurso onde os cães realizam tarefas de equilíbrio, obediência e habilidade, tudo para gastar energia.
Mudanças e modismo
Diante da evolução e da mudança do papel dos cães na sociedade, muitas
raças acabaram extintas e outras ficaram deformadas. Um caso curioso é o
do Turnspit Dog, um cão europeu que foi criado com apenas uma
finalidade: girar o espeto de carne durante o churrasco. “Veio a
modernidade e o homem percebeu que era fácil virar o espeto. Com isso,
simplesmente acabaram com a raça. E é assim que a gente pode perceber
como não havia carinho naquela época”, conta Éric.
Os cães entram e saem de moda como roupa. Quem passou pelos anos 1980
conviveu muito com os pastores alemães, que hoje não são tão populares. O
Pequinês também era febre e acabou esquecido. Os filmes com cães
colaboram para esse modismo. Lendas urbanas também podem fazem uma raça
sumir. Uma mentira sobre o Doberman colaborou e muito para que eles
praticamente desaparecessem.“É difícil entrar cachorros dessa raça hoje
em dia. Nos anos 1980, ele era uma febre e todo mundo queria um, mas
criou-se o mito de um cão assassino”, lembra o vice-presidente da
Sobraci.
Cães são treinados e chegam até a 'rezar'
(Foto: Reprodução/TV TEM)
Os
bulldogs merecem destaque. Eles não sumiram, mas passaram por drásticas
transformações. A raça foi criada por açougueiros ingleses há quase 1
mil anos exclusivamente para batalhas sangrentas nas lutas com touros.
Com a proibição das lutas, no fim do século XIX, a raça quase
desapareceu.
A saída foi criar somente os mais dóceis de cada ninhada. Por estética,
diminuíram o focinho, ele ficou mais baixo e engordou. Essa mudança
trouxe problemas para os animais da raça. “Ele tem a pele mais grossa,
um acúmulo de gordura e o focinho muito achatado, o que dificulta muito a
respiração. E é na troca de ar que os cachorros fazem o resfriamento do
corpo, como ele não consegue fazer isso direito, passa muito mal
durante o calor”, aponta a médica veterinária Ana Paula Guerra.
Ricardo Fischer, armador do Bauru
Basquete é dono do bulldog Barthô e ele sabe da dificuldade que é criar
um cão dessa raça. “Ele só consegue passear quando escurece, tem que
ter um ventilador individual e tem que secar bem as dobras perto dos
olhos. Além disso, a alimentação é balanceada”, conta o jogador.
No momento da escolha
Na hora de ter um cãozinho é preciso conhecer a raça e o temperamento
do animal. É sempre bom ter em mente que cachorro não é uma regra
matemática. Ou seja, nem todo bordercollie é inteligente, nem todo
labrador é dócil, nem todo pitbull é violento. “Não é porque aquela
determinada raça é muito calma que não possa existir um deles que não
seja agressivo. Tem que pesquisar bastante”, explica Ana Paula.
É preciso ter cuidado na hora de escolher o
filhote (Foto: Reprodução/TV TEM)
É
o exemplo de uma família de Bauru. O Uru é um fila brasileiro
extremamente dócil e assusta somente pelo tamanho. No entanto, Agatha e a
Mila, dois cachorro da família com a mesma raça e a mesma criação são
muito mais agressivas. “Tem que separar porque elas não conseguem ficar
juntas. No começo a gente tentou, mas tinha briga de tirar sangue uma da
outra e correr para veterinário. Resolvemos com cada uma no seu
espaço”, conta Cláudia Sartorri Hilsdorf.
Mas segundo os especialistas é possível prever a personalidade do
animal quando eles ainda são filhotes. É preciso tomar a decisão correta
naquela hora difícil de escolher um entre muitos na ninhada. “Ele tem
que olhar o cão que não tenha essas atitudes e impulsos mais aflorados. É
possível diferenciar um cão mais tranquilo, que não precisa ser
inseguro, mas com um nível de atividade menor do que outro irmão dele”,
ressalta o adestrador Duval Ramos.
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